A reforma há muito adiada do mal-ajambrado Sistema Solar poderia estar próxima de sair do papel. Se tivesse sido aprovada, por uma assembléia de astrônomos do mundo todo, em 2006, poderia elevar para 12 o número de planetas nos domínios do Sol, se resgatasse um "ex-planeta" e promovesse dois novatos. Os livros didáticos, que trazem a tradicional imagem dos nove planetas em torno do Sol, poderiam ter de mudar.
O rascunho da proposta foi apresentado durante o encontro da IAU (União Astronômica Internacional), que aconteceu em Praga, capital tcheca. Os membros da IAU discutiram a idéia em assembléia-geral e votaram a proposta em plenário na tarde do dia 24. Se ela fosse aprovada, o asteróide Ceres, entre Marte e Júpiter, Caronte, atual satélite de Plutão, e o misterioso "Xena" (apenas um apelido provisório), nas fronteiras geladas do Sistema Solar, passariam a ser planetas
"Acho que deveríamos celebrar este momento", disse à Folha Richard Binzel, astrônomo do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e membro do aparentemente surreal Comitê para a Definição de Planeta, montado pela IAU para criar o rascunho de proposta. "Estamos chegando a uma nova compreensão de o que é o Sistema Solar, e é isso que essa proposta representa."
Do ponto de vista científico, não dá para discordar. "Pelo menos agora existe uma definição técnica para planetas. As arbitrariedades deveriam diminuir", avalia o astrônomo Cássio Leandro Barbosa, da Univap (Universidade do Vale do Paraíba). Em meio às incertezas da aparente presença de muitos corpos de tamanho comparável ao de Plutão (hoje o último e menor dos nove planetas), muita gente sugeriu usar as dimensões do nono planeta como "nota de corte", ou simplesmente proibir a subida de novos astros para a primeira divisão do Sistema Solar, o que seria para lá de arbitrário.
Definição natural
O comitê de sete especialistas resolveu isso buscando a definição que eles consideram a mais "física" possível: um planeta é um objeto que orbita uma estrela sem ser ele próprio uma estrela, e cuja massa seja grande o suficiente para que ele assuma naturalmente a forma de uma esfera. "A configuração esférica, nesses casos, é a mais estável e a que exige menos energia para se manter. É como uma pilha enorme de embalagens que desaba para sua posição mais natural", diz Barbosa.
A Lua, no entanto, não se classificaria porque o centro de gravidade do sistema que ela forma com a Terra se localiza dentro da própria Terra.
"Precisamos de uma definição de planeta que valha para qualquer lugar do Universo", explica Binzel. "E se aparecer um sistema planetário em que há dois corpos do tamanho de Júpiter orbitando um ao outro? Não podemos acabar chamando um de planeta e o outro não", pondera. É por razão parecida, aliás, que Caronte foi promovido: ele e Plutão giram em torno de um mesmo centro de gravidade, que fica no meio dos dois. É como se fosse um "planeta binário", diz Binzel, comparando o par com as chamadas estrelas binárias.
Fonte: Folha

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